Nas últimas 72h, duas mulheres foram vítimas de feminicídio no Distrito Federal (noticiado até o momento), elevando o número de casos para seis apenas nos três primeiros meses do ano. Soma-se a essas mortes violentas, dezenas de tentativas de feminicídio. São Marias, Dayanes, Anas e Géssicas. Todas mulheres, mães, filhas, irmãs e tias com trajetórias interrompidas por um único motivo: ser mulher.
Buscando romper o ciclo da violência de gênero, a Fiocruz Brasília em parceria com movimentos feministas e instituições públicas, lançou, nesta segunda-feira (31/3), o Colaboratório Com Elas – Pelo Fim do Feminicídio. A iniciativa surge como resposta ao aumento do número de casos e se propõe a oferecer não apenas soluções imediatas, mas ferramentas que garantam mudanças estruturais e proteção efetiva às mulheres.
A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, destacou que o diferencial do projeto é a presença direta no território. “É isso que vai fazer a diferença efetivamente. Como fazer com que a sociedade brasileira não fique indiferente ao que está acontecendo no país? Precisamos mobilizar a sociedade, falar com os homens e buscar as organizações para que a gente possa cessar esse ódio contra nós, mulheres. A mudança de comportamento é essencial para que as mulheres fiquem vivas”, afirmou, lembrando que, no último final de semana, quase 40 mulheres foram vítimas de feminicídio em todo o Brasil.
Para garantir os direitos das mulheres, a ministra elencou três temas primordiais: feminicídio zero, igualdade salarial para a autonomia e a democracia, com a maior participação feminina em diferentes espaços. “Queremos um país em que a justiça, a igualdade e a solidariedade sejam o princípio básico de qualquer política pública, em qualquer relação social e em todos os lugares”, afirmou.
A diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damásio, ressaltou a necessidade de fortalecer os laços sociais e institucionais na construção de soluções duradouras. Ela lembrou do início do planejamento do Colaboratório, um espaço de construção participativa que une diferentes poderes, construindo dados no território com os movimentos sociais e subsidiando a tomada de decisão e a construção de políticas públicas, no avanço com políticas estruturantes, acolhedoras e protetoras das mulheres.
“É um momento de união de forças para que a gente possa falar cada vez mais alto que é feminicídio zero. Não podemos aceitar que as violências ocorram dentro de casa todos os dias ou qualquer situação em que a vida de uma mulher deixe de existir pelo fato de ela ser mulher. Somos quilombolas, negras, indígenas, idosas, LGBT, trabalhadoras. Que a gente possa se conhecer cada vez mais a partir da nossa diversidade, da nossa pluralidade”, ressaltou.
A urgência da luta contra o feminicídio
O lançamento foi marcado por depoimentos emocionantes, carregados de dor e sofrimento, de mulheres que vivenciaram violência de gênero. “Nada te blinda da violência de gênero”, relatou uma mulher, destacando as dificuldades enfrentadas mesmo ao denunciar os abusos. Outra vítima, que sofreu violência doméstica por 23 anos, reforçou a solidão da luta por direitos.
Os relatos expuseram também falhas no sistema de combate à violência contra mulher, destacando a necessidade de fortalecer as políticas públicas de proteção, qualificar e treinar equipes de atendimento às mulheres vítimas de violência.
“Como nós, promotores de justiça, devemos atuar no atendimento dessa mulher? Existem ainda muitas permanências discriminatórias. Só realmente nos aproximando da sociedade civil conseguimos entender as reais necessidades das mulheres e o que nós, como instituições públicas, precisamos melhorar e trabalhar para que realmente todas essas vivências sejam consideradas”, enfatizou a promotora de justiça Adalgiza Medeiros, coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).
Ela classifica a diversidade de atores e vozes trazidas pelo Com Elas como essencial para obter dados e evidências e pensar em uma ação realmente integrada para conseguir chegar às mulheres. “É uma dor contabilizar a morte de mulheres. Quando chega uma notícia dessa, me faz pensar que estamos falhando muito. Precisamos das vozes da sociedade para nos trazer esses reais problemas para que possamos fazer realmente políticas públicas”, disse.
A coordenadora-geral de Atenção à Saúde das Mulheres da Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Renata de Souza, anunciou a produção de materiais para capacitação de equipes da atenção primária, enquanto a ex-deputada distrital Arlete Sampaio apresentou relatório da CPI do Feminicídio, que aponta falhas nas políticas públicas de prevenção e acolhimento das vítimas e será utilizado pelas equipes do Colaboratório Com Elas.
Já deputada federal Erika Kokay enfatizou a necessidade de enfrentar o machismo estrutural e fortalecer os espaços de escuta e acolhimento para mulheres. “Se aprendemos a odiar, também podemos aprender a amar. Vamos agregar todos esses dados e ir para o território mergulhar nas condições que levam ao feminicídio, porque é onde as coisas acontecem. Só assim conseguiremos romper com o ciclo de violência”, finalizou.
Para Socorro Souza, coordenadora do Coletivo de Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz Brasília, a luta contra o feminicídio é uma missão coletiva que precisa da participação efetiva do movimento das mulheres para avaliar os espaços e as respostas possíveis. “Não existe sociedade humana com mulheres sendo mortas todos os dias. Vamos à luta!”.
Estiveram presentes no evento as deputadas federais Jackeline Rocha e Ana Paula Lima.
Com Elas
O projeto teve início em fevereiro de 2024 e reúne diferentes esferas do governo, representação do parlamento, sociedade civil e instituições acadêmicas. Buscando propor novas abordagens, mas também fortalecer iniciativas já existentes, promovendo um ambiente de inovação e cooperação, ele tem três frentes principais. O primeiro é o grupo de pesquisa participativa, com a participação de pesquisadores e movimentos sociais para o levantamento e análise de dados nos territórios para embasar políticas públicas efetivas. Conta, ainda, com a formação e capacitação para promover uma rede de cuidado acolhedora e eficiente, além da atuação direta nos territórios, fortalecendo as instituições e garantindo um acolhimento adequado às mulheres vítimas de violência. O projeto inicia suas atividades na Cidade Estrutural (DF), mas tem a intenção de expandir para outras regiões da capital federal.
“É uma realidade dura, a cada dia quando acordo e abro as redes sociais, me deparo com mais um feminicídio, então, precisamos dar um basta nisso. A gente espera que, com o Colaboratório, possamos chegar ao feminicídio zero”, disse a coordenadora-geral do projeto e coordenadora adjunta do Núcleo de Educação Popular, Cuidado e Participação em Saúde (Angicos), Rozângela Camapum.
Confira aqui as fotos do evento. Veja em nosso perfil do Instagram a cobertura completa do lançamento.