Maria Quitéria, Nise da Silveira, Dandara de Palmares, Bertha Lutz, Marta Vieira da Silva, Conceição Evaristo, Glória Maria, Rebeca Andrade, Dona Ivone de Lara e Jaqueline Goés. O que essas mulheres têm em comum além do gênero? Representatividade, excelência e a luta por equidade, espaço e reconhecimento em áreas como literatura, comunicação, ciência, esporte, psiquiatria e música.
Mulheres brasileiras que marcaram a história em suas áreas, rompendo barreiras e desafiando padrões, foram lembradas no evento de encerramento do curso de Especialização e do curso Livre em Direitos Humanos, Participação Social e Promoção da Saúde das Mulheres. Realizado na última sexta-feira (21/3), o evento foi promovido pelo Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (PSAT) da Fiocruz Brasília.
A diversidade feminina em diversos campos do conhecimento também foi destacada pela vice-diretora da instituição, Denise Oliveira. “Campos que poderiam estar invisíveis se não fosse essa formação. É a visibilidade que promove a transformação e o empoderamento feminino para mudanças nessa temática”, afirmou a pesquisadora, ressaltando o impacto do curso na saúde pública brasileira.
Um dos temas abordados na formação foi a resistência das mulheres das águas. Durante o evento, a pescadora Eleonice Conceição Sacramento, da Articulação Nacional das Pescadoras (ANP) e do Movimento de Pescadoras e Pescadores (MPP), destacou a importância da tradição milenar dos povos das águas, comunidades tradicionais que vivem em regiões ribeirinhas, costeiras, ilhas, margens de rios, lagos e mares no Brasil (como pescadores artesanais, ribeirinhos, marisqueiras, caiçaras e quilombolas litorâneos). Ela ressaltou que, apesar da luta por liberdades, é preciso mudar a narrativa de miséria e escravização.
“A gente tem uma luta sistematizada que se dá na Constituinte. O lugar da miséria continua sendo sustentado para falar sobre nós e sobre nossos direitos. Eles precisam ser garantidos para além da miséria. Eu não quero sobreviver, quero continuar vivendo”, declarou Eleonice.
A pescadora enfatizou os direitos já conquistados e a necessidade de ampliar o debate, especialmente diante da crescente cobiça pelo ambiente das águas por políticas desenvolvimentistas. “É necessário sensibilizar um número maior de pessoas para que se tornem parceiras nessa luta. A água é um bem coletivo e um território fundamental para toda a sociedade”, frisou.
Ela também chamou atenção para o impacto ambiental e social sobre a população das águas. “O alimento que produzimos, em quantidade, diversidade e qualidade, é essencial para a sociedade, que tem uma dívida histórica com nossa população. Muitas vezes, estamos com os corpos imersos em lamas e águas contaminadas”, denunciou, citando o aumento de adoecimentos e seus impactos no Sistema Único de Saúde (SUS).
Eleonice reforçou ainda a importância da produção de informação como ferramenta de resistência. “A ciência tem sentido quando está a serviço das causas do povo. Precisamos seguir produzindo conhecimento que enfrente a invisibilidade e contribua para a luta das mulheres pescadoras, ribeirinhas e indígenas”, concluiu.
O evento contou ainda com a participação de Daiana Ferreira, pescadora de Maragogipe e formanda do curso, além da deputada federal Érika Kokay, proponente da emenda parlamentar que viabilizou a formação.
“Essa é uma formação muito desejada, pensada e executada por mulheres, com mulheres e para mulheres. É um tempo de celebração! Não foi fácil, mas foi necessário para cada uma de nós. Finalizamos o projeto com muito estudo e trabalho”, afirmou Rosely Arantes, pesquisadora do PSAT, ao relembrar o início do curso, em março de 2024.
A capacitação teve como objetivo reconhecer e valorizar a produção de conhecimento das mulheres, fortalecendo sua participação social na promoção da saúde com equidade de gênero. Ao todo, 58 mulheres concluíram a formação, sendo 53 na Especialização e 5 no curso Livre. Durante o curso, elas desenvolveram 38 projetos de integração em comunidades do Distrito Federal e de outros estados. As experiências das educandas nos territórios foram expostas no jardim da Fiocruz Brasília.
A primeira edição do curso reuniu professoras e alunas de diversas regiões do Brasil para discutir temas fundamentais dos direitos humanos das mulheres. Além da promoção da saúde e da participação social, foram abordadas questões como interseccionalidade, vigilância em saúde, políticas públicas, bioética e envelhecimento. Com uma turma diversa, composta por profissionais da saúde, ciências sociais, educação, comunicação, além de membros de movimentos sociais, agricultoras familiares e artesãs, a formação buscou fortalecer redes de apoio e qualificar profissionais comprometidas com a transformação social e a construção de uma sociedade verdadeiramente equânime.
Confira aqui as fotos do evento.
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